Quarta-feira, 18 de Março de 2009

Spirit, um fracasso anunciado


The Spirit - O Filme estréia no Brasil nesta sexta-feira, 20 de março, e mesmo acumulando críticas negativas é um filme obrigatório.

Por lory looove

Seis décadas após sua criação pelo gênio dos quadrinhos Will Eisner, a história de Spirit faz sua estréia nos cinemas brasileiros na próxima sexta-feira e, nem de longe deve repetir o sucesso alcançado pelo comic na década de 40. Dirigido por Frank Miller, o filme sobre o detetive mascarado Denny Colt que sobrevive à morte para se tornar um vigilante mascarado em defesa de Central City, traz efeitos especiais, mulheres bonitas em muita ação em um cenário noir futurista. Mesmo assim, amargou um sétimo lugar no final de semana de estréia nos Estados Unidos e acumulou centenas de críticas negativas. Mas o que poderia ter dado errado? O filme seria mesmo tão medíocre a ponto de ter um desempenho tão abaixo do esperado e receber críticas tão negativas? Infelizmente parece que sim.

Desde a primeira imagem divulgada pela produção de Spirit, Frank Miller foi duramente criticado até pelos seus mais ferrenhos fãs. Enquanto uns alertavam para algumas mudanças no tradicional traje do detetive, originalmente azul e agora preto, outros chamavam atenção para a possibilidade do filme ser somente uma recauchutagem de Sin City, também dirigido por Miller. Mas, aparentemente as falhas de Spirit vão além da estética ou da cinematografia: quem assistiu ao filme garante que ele é uma equivocada mistura de ação sem sentido e comédia sem graça que tenta, sem muito sucesso, reproduzir o espírito das histórias de Denny Colt. Nem o elenco, formado por belas garotas e atores de peso foi poupado: para Roger Ebert, respeitado jornalista do Chicago Sun-Times, o filme não possui qualquer traço de emoção humana. “Dizer que os personagens são de papelão é um insulto um material tão útil”, afirmou em uma das reviews mais negativas que o longa recebeu até agora. A parte de direção de arte foi quem mais sofreu ataques, principalmente por Central City ser muito semelhante (demais) a Sin City, mas, ao mesmo tempo, diferente por ser praticamente uma imagem superficial e falsa dela, sendo que em alguns momentos, a cidade que grita parece um monte de caixas de sapato empilhadas.

Miller alterou praticamente todas as características dos personagens de Eisner e sumiu com outras figuras fundamentais para o nascimento do herói, como Ebony White, o garoto negro ajudante de Spirit e o Dr. Cobra.

“Como eu disse, meu desejo nunca foi o de jogar as regras dos anos 40 para o espaço, mas reintroduzir a criação de Eisner, com tecnologia moderna, ao nosso bravo mundo novo.” disse Miller em uma carta aberta enviada aos fãs alguns meses atrás. Na ocasião, ele procurou defender-se das críticas a que vinha sendo alvo e procurou tranqüilizar os fãs da HQ dizendo, principalmente, que não iria tratar Spirit como monumento enferrujado, velho e empoeirado e avisou logo de cara que também faria com que o longa fosse uma extensão do que seria a intenção central de Eisner: criar algo novo, esperto e exploratório. Mas, Miller falhou ao transformar o filme em um noir cheio de femme fatalles, o que definitivamente não é o caso na obra do Will Eisner, muito mais orgânica, sutil e bem humorada.

O roteiro também não ajuda. O diretor optou por misturar três histórias todas escritas por Eisner nos anos 40 e 50, dando ênfase a “Sand Saref”, uma das primeiras tiras de jornal de Spirit, publicada em 8 de janeiro de 1950. Repleta de aventura romance e espionagem é nela que Eisner nos é apresenta o primeiro amor da vida de Spirit, Sand Saref, quem o levou a vida do crime e quem o trouxe para o lado da justiça. No filme, tudo isso vira uma salada desnecessária de croma keys e personagens caricatos que muitas vezes se perdem no plano.

O filme não funciona nem como um blockbuster, já que a maioria de suas cenas é descartável para o contexto, nem tudo é plástico e funciona, prova irrefutável que não basta ser um talentoso criador de quadrinhos para de uma hora para outra, virar diretor de cinema. As coisas não são assim tão fáceis. Mas mesmo assim, aconselho a você assistir ao filme. Mesmo que, ao final, você saia xingando. O mérito de Spirit é, tão somente, resgatar um personagem tão forte, que de uma maneira ou outra, acabou se perdendo com o passar dos tempos.

QUEM É QUEM EM THE SPIRIT

Spirit (Gabriel Macht) - O detetive Denny Colt volta da morte como o herói mascarado que defende Central City. A caracterização de Macht é muito parecida com o protagonista da HQ, mas há diferenças: a cor do terno mudou de azul para preto. Segundo Miler, manter o traje azul fez com que nas telas Spirit parecesse um convidado desafortunado numa festa de Halloween. “O negro traz de volta o seu mistério essencial, seu estilo sexy como o Zorro. E ainda faz aquela gravata vermelha dele ficar muito, muito mais legal” disse em uma carta aberta aos fãs.
Outra mudança significativa no traje de Spirit são seus pés: ele agora usa tênis, numa propaganda embutida da All Star.

Sand Saref (Eva Mendes) – A personagem mais fiel à HQ, Sand Saref é a paixão de infância de Denny Colt, e sabe que ele é Spirit. Está sempre envolvida em algum esquema criminoso e adora jóias – a busca por uma a leva de volta a Central City.

Octopus (Samuel L. Jackson)
O arquiinimigo de Spirit mudou muito em relação à HQ, em que era o gênio do crime, estava sempre de luvas e nunca mostrava o rosto. Virou um cientista maluco, que mostra sua face e adora fantasias, de samurai a nazista.

Silken Floss (Scarlett Johansson)
Frank Miller reescreveu o papel para Scarlett. A médica de meia-idade, sexualmente reprimida, virou uma jovem doidinha, ajudante de Octopus.

Comissário Dolan (Dan Lauria)
O chefe de polícia também sabe da identidade secreta de Spirit. Mantém no cinema a personalidade ranzinza da HQ. E para aqueles que estão na dúvida, sim! Dan Lauria era o pai de Kevin no seriado Anos Incríveis.

Ellen Dolan (Sarah Paulson)
A filha do comissário, também enamorada por Spirit, virou uma cirurgiã que vive costurando o herói após suas inúmeras sessões de pancadaria com Octopus.

Plaster de Paris (Paz Veja)
Caso antigo de Spirit, a bailarina assassina aparece em uma única cena, fazendo sua “dança da adaga” numa seqüência idêntica à da história original que leva seu nome.

QUEM SUMIU

Ebony White - O garoto negro, ajudante de Spirit, não existe no filme. Explica-se: sua caracterização caricatural na HQ era espaço para piadas racistas. Mesmo assim sua ausência é um erro terrível, principalmente porque a personagem tem papel importante no “nascimento” de Spirit

P’Gell
Femme fatale que montou um império do crime em Istambul ao se casar com homens ricos e depois matá-los. No filme, seu poder de sedução foi passado a Sand Saref.

Dr. Cobra
O cientista maluco por trás da origem de Spirit teve características incorporadas por Octopus. Pena.

Terça-feira, 10 de Março de 2009

Watchmen - O Filme


Texto de Bianca Sobieray

Adaptação cinematográfica em nada deixa a dever à genialidade da clássica HQ escrita por Alan Moore

Watchmen – O Filme está bem longe de uma história de super-heróis normais. A HQ, escrita por Alan Moore e publicada entre 1986 e 1987, tem entre seus maiores méritos o realismo. A adaptação, com direção de Zack Snyder, não fica nada atrás. O que se vê é uma obra quase fiel, desde os diálogos até as cores adotadas na fotografia. O “quase” é apenas por uma mudança no final do longa, que, diga-se de passagem, combinou muito bem com os dias de hoje.

Para combater ladrões mascarados na década de 60, um grupo de policiais resolve assumir identidades secretas. Daí surgem os Vigilantes. Fazendo justiça com as próprias mãos, o grupo vive imerso em uma realidade de morte e vingança. Até aí nenhum dos personagens tem de fato superpoderes, não há nada de sobrenatural. Isto muda depois que um acidente nuclear transforma o físico Jonathan Osterman em uma espécie de semideus, o quase onipotente Dr. Manhattan. Entre suas habilidades, está controlar moléculas e se teletransportar através delas. Manhattan entra para o time de heróis. Entre as missões do grupo está, por exemplo, intervir na guerra do Vietnã – pedido feito especialmente pelo presidente Nixon, governante da época. Mas manifestações de rua e a violência com que os Vigilantes tratam as situações fazem com que o próprio presidente crie a Lei Keene, proibindo a atividade dos mascarados.



Porém, isso tudo se descobre durante o desenrolar do longa. A história de Watchmen começa mesmo com a morte de um dos vigilantes mais importantes: Edward Blake, o Comediante. A partir deste momento é possível entender o mundo dos heróis, com seus espíritos de anti-heróis e falhas humanas. No caso do próprio Comediante, que carrega em sua história a tentativa de estupro da sua colega, a heroína Espectral, está refletida uma das maiores facetas da sociedade. Após a morte do colega, Rorschach – o único que ainda trabalha investigando crimes, apesar da ilegalidade – começa a buscar explicações para o assassinato de Blake. Levanta-se então a possibilidade de uma conspiração contra os ex-mascarados, com algo que seria uma manobra para matar os ex-super-heróis.

Entre investigações e descobertas, a trama se desenrola com uma naturalidade espantosa. E mesmo com seus 160 minutos, Watchmen – O Filme não cansa. A agilidade e a maneira como as cenas se completam impressiona. Certamente, a história ajuda. E muito. Longe da distinção entre o bem e o mal, normalmente encontrada nas histórias de super-heróis, vemos algo da vida real: heróis tão humanos que acabam se encurralando em seus próprios medos e desejos.

Parceria http://www.mondobacana.com

Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

Valsa com Bashir


Waltz with Bashir, 2008)

Por lory looove


Favorito ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano, Valsa com Bashir (Waltz with Bashir) não deve ser encarado como uma simples animação sobre um conflito. Deve ser assistido como um testemunho sobre a busca de seu diretor Ari Folman por suas memórias perdidas da invasão do sul do Líbano por Israel e do posterior massacre de refugiados palestinos, em 1982. Um retrato cru que nos recorda a realidade atroz de qualquer guerra.

Antes, o contexto histórico. Em junho de 1982, com o apoio de milícias libanesas, Israel invade o Líbano e chega a Beirute. Após dois meses de intensos bombardeios israelenses, é negociada a retirada da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) da capital libanesa, que deixaria o país no ano seguinte. Em 16 de setembro, com permissão israelense, milícias cristãs libanesas invadem os campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila, na parte oeste de Beirute, e massacram a população civil. Não se sabe se o exército israelense desempenhou um papel ativo na carnificina, mas a ação é uma represália pelo assassinato, dois dias antes, do presidente eleito Bashir Gemayel.

Na ocasião, cerca de 600 pessoas, entre mulheres, crianças e idosos palestinos, foram mortos sob a luz de foguetes de iluminação disparados sobre Beirute pela unidade do exército israelense do qual o diretor Ari Folman fazia parte. Eles haviam recebido a ordem de ajudar a milícia falangista cristã a impor a ordem nos campos para onde a população civil era conduzida.

Valsa para Bashir traz Folman vinte anos depois tentando remontar seus passos durante o conflito no Líbano. O autor sugere em seu filme que algumas pessoas podem eliminar as lembranças de momentos traumáticos do seu passado, o que curiosamente vai de encontro com as produções americanas sobre guerras. Logo de cara, as cenas iniciais pegam o público em cheio: cães raivosos perseguem um homem pelas das ruas a fim de matá-lo – um sonho recorrente de um dos soldados compatriotas de Folman. Isso é o gatilho que faz disparar as memórias enevoadas do próprio diretor. A partir daí, a versão animada do diretor tenta recontruir suas experiências de guerra através de conversas com seus companheiros de conflito.

O ritmo da narrativa é tão forte quanto os traços da animação. Os flashbacks do autor vão de cenas bucólicas a locais sombrios e a sequência dos fatos chega a lembrar uma bad trip alucinógena. Intenso, os desenhos assinados por David Polonsky atingem o público imediatamente e permitem que a história indigesta seja absorvida de uma maneira mais homogênea.

Mas o principal mérito de Waltz with Bashir é o de não escolher lados, de não encaminhar o espectador para o culpado e de não sensacionalizar o sucedido. A animação é talvez a mais viva e artística do novo milênio, esquecendo um pouco do lançamento em massa dos gráficos digitais, desenhinhos bonitinhos e engraçadinhos dos estúdios americanos. E com o desenrolar da história, o filme vai adquirindo uma atualidade que exige e ao mesmo tempo excede a compreensão do contexto histórico a que se refere, permitindo um conjunto de reflexões, paralelismos e perspectivas de futuro para um conflito cuja resolução continua a ser tragicamente adiada.

Não foi à toa que recebeu o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira de 2008 e periga ganhar o Oscar na mesma categoria no próximo dia 22 de fevereiro. Por aqui ele deve estrear no dia 10 de abril. Só nos resta esperar que ele não seja ignorado pelas grandes redes de salas de cinema, porque senão, infelizmente Valsa para Bashir não encontrará o seu público merecido, a exemplo de outras produções do gênero.

Segunda-feira, 8 de Setembro de 2008

Capítulo 27


Acabo de assistir o estranhudo, insosso e protocolar Chapter 27 (em português Capítulo 27, de J.P. Schaefer, 2007). De cara já se sente engulhos, a narração é nauseante, o falar de Mark Chapman (Jared Leto, o lindíssimo Jordan Catalano de My So-Called Life, aqui com 28 quilos a mais só por amor à profissão) só podia mesmo ter essa inflexão, doentia, demente, sequëlada, enfim. Mesmo sendo tudo fake ou não.

(Esse tom de voz wacko remete direto ao monólogo inicial de Eu Você e Todos Os Outros, Me and You and Everyone We Know, que é encantador, mas essa parte, somente essa, insuportável, que quase põe tudo a perder de cara, dá vontade de dar mesmo na cara da Miranda July. OK, ela faz coisas geniais, porém esse trecho do filme e o olhar coitadista-frágil-bem-intencionada da mulher são IRRITANTES! Só o ar de coitadismo-mór de Mia Farrow supera, na boa. Pensando bem... há outros graus de coitadismo antes do auge Farrowico.)

Chapter 27 poderia até ser razoável se não tão raso (!), se não fosse a historinha armada para "legitimar" o ilegitimável golpe da CIA uma braba conversa pra boi dormir. Literalmente. O longa é algo que só mesmo um beatlemaníaco teria saco de assistir até o final - e isso para maníacamente checar se todos os detalhes da "versão oficial" do Lennongate estão corretos e no lugar. Um espectador comum, leigo, alheio ao universo beatle ou pop, não chegaria ao fim, nãaaao mesmo. Só se salva a trilha sonora. A propósito, os fãs dos Beatles boicotaram, e com razão, o insosso e inútil "relato cinematográfico".

Aliás, só mesmo um comum, leigo, ALHEIO para crer nessa versão patética do assassinato de John Lennon. É que no mundo moderno os homens cinzas trabalham mais sofisticadamente, urdem tramas para todo tipo de golpe e inside job. Quando mataram Gandhi, por exemplo, mataram na lata e pronto. Ficou por aquilo mesmo. E sabia-se que não havia sido ato de "seqüelado seguidor e leitor de Salinger", ora vamos.

Leia Who Killed John Lennon, de Fenton Bressler, alguns trechos aqui

.Bizarro:

1- O ator que faz Lennon no filme se chama... Mark Lindsay Chapman (?!?) - como assim? que falta de gosto essa escolha, decididamente.

2- A data de nascimento desse cidadão ator inglês é exatamente 8 de setembro... ou seja, hoje, agora! Que pensar disso? E o cara nasceu no ano de 1954 - adivinha quantos anos ele completa hoje...? É, 54. Spooky, como diria lory.

3- Jared Leto, Chapman no filme, é vocal e guitarra do 30 Seconds To Mars

4- Lamentabilíssimo O APanhador no Campo de Centeio ter sido envolvido e associado a essa perfídia toda.

Domingo, 20 de Julho de 2008

Batman - O Cavaleiro das Trevas


Uau. Ao sair da sala de projeção de Batman – O Cavaleiro das Trevas, a sensação de ter assistido um divisor de águas na trajetória do cinema não pode ser descrita em poucas palavras. Ficou impossível caminhar contra a maré e não entrar de cabeça no hype formado a partir de uma campanha viral ao melhor estilo de “A Bruxa de Blair” e “Cloverfield”, até um poderoso esquema de marketing que incluiu o lançamento do DVD animado O Cavaleiro de Gotham, com tramas localizadas entre Begins e a obra recém lançada no cinema.

Tanta expectativa criada em torno do filme foi aumentando devagarinho, fazendo com que se tornasse a produção mais esperada de 2008. O processo começou três anos atrás com “Batman Begins”, que zerou a cronologia do personagem criado por Bob Kane na telona, deu credibilidade a um gênero cinematográfico – o das adaptações das histórias em quadrinhos – não levado a sério (exceção aos fanáticos) e satisfez os fãs que haviam torcido o nariz para os longas de Tim Burton e de Joel Schumacher.

A morte prematura de Heath Ledger (escalado para viver o Coringa), aos 28 anos por overdose de medicamentos este ano, e os primeiros trailers fizeram o burburinho se tornar uma bola de neve. E não houve decepção. As primeiras críticas da produção compararam-na com “O Poderoso Chefão 2” e “O Império Contra Ataca”, continuações superiores aos filmes originais de suas respectivas franquias. Daria para incluir aí “O Exterminador do Futuro 2”. “É a melhor adaptação de uma HQ para o cinema já realizada”. “Oscar póstumo para Ledger”. “Indicação de Melhor Filme no Oscar de 2009”. Essas foram algumas bolas levantadas pela imprensa especializada.

E O Cavaleiro das Trevas é isso tudo e mais. Não é apenas um filme de ação, mas tem seqüências eletrizantes (e um orçamento de US$ 150 milhões). É um drama policial denso, tenso, com toques de tragédia principalmente no ato final, porém tem ótimas sacadas irônicas (principalmente vindas do mordomo Alfred, tão bem composto por Michael Caine). Tem tempo de projeção considerado longo para o gênero (mais de duas horas e meia), mas o espectador nem sente os minutos passarem tamanha hipnose causada por cada cena, cada diálogo.

É um trabalho minucioso de direção (de Christopher Nolan, que também assina o excelente roteiro com o irmão Jonathan), e uma magnífica parábola do mundo atual. Até que ponto vale seguir as leis oficiais? Todo ser humano é incorruptível? É necessária a existência de um vigilante? Além disso, é a jornada e a transformação de duas figuras do lado da lei (uma “oficial”, a outra de “capa e máscara”) que precisam confrontar seus ideais perante o caos perpetrado por um lunático. É uma obra completa, com tudo no seu devido lugar.

Diferente de outras adaptações cinematográficas de HQs, em que os atores dão entrevistas dizendo que se divertiram ao interpretar seus personagens, tanto em Batman Begins como em O Cavaleiro das Trevas, os artistas se dedicaram como que participando de um drama shakespereano. Vestiram a camisa e saíram, cada um à sua maneira, com atuações excepcionais.

Se no anterior a platéia pôde presenciar o encontro de Liam Neeson, Ken Watanabe, Tom Wilkinson, Rutger Hauer, entre outros, nesse confere os remanescentes Christian Bale (o melhor de todas as encarnações do homem morcego), Morgan Freeman, Michael Caine, Gary Oldman e até Cillian Murphy (em rápida aparição), mais os “novatos” Maggie Gyllenhall (ocupando o posto que havia sido de Katie Holmes, como a promotora Rachel Dawes), Aaron Eckhart, Eric Roberts e Heath Ledger.

Na trama, Batman tornou-se o medo dos bandidos da cidade. Junto com o tenente Gordon (Oldman), conseguiu finalmente fazer com que os traficantes sentissem medo. Porém, cidadãos passam a se vestir como ele e tentam “fazer justiça”. No campo dos tribunais, o município passa a ter um promotor confiável, Harvey Dent (Aaron). Em meio a tudo isso, surge o Coringa, que propõe à bandidagem a solução para que o crime volte a governar Gotham: matar Batman. Atentados passam a acontecer, juízes, policiais e civis são mortos. Caos e pânico se instalam.

Mesclando ação, suspense, drama e thriller o espectador é jogado num épico que retrata uma imagem de sociedade desorientada, que busca sedentamente alguém em quem confiar, que possa salvá-la da desordem. O roteiro também dá uma pequena cutucada no governo americano, quando questiona se é ético e/ou necessário estar plugado aos celulares de todos os munícipes para vigiá-los e conseguir informações.

Se a direção de Nolan (inspirada, segundo o próprio, em “Fogo Contra Fogo”) é espetacular (ele praticamente abriu mão de efeitos computadorizados e filmou quase tudo “de verdade”), a trilha sonora de James Newton Howard e Hans Zimmer cria os momentos perfeitos de tensão, o elenco é a cereja de um bolo cujos ingredientes se casaram com perfeição.

Caine e Freeman surgem carismáticos como sempre, Maggie dá uma dimensão dramática ao papel que a até mais bonitinha Holmes não havia conseguido antes, e Bale e Eckhart conseguem transmitir os conflitos internos de seus personagens. O primeiro enxerga no promotor Harvey Dent uma esperança de poder deixar a cidade nas mãos de um “cavaleiro branco” e assim, levar uma vida normal. Já o segundo mergulha numa viagem sem volta de transformação intensa, perante sentimentos como injustiça e perda. E juntos a Rachel formam um triângulo amoroso.

E há Heath Ledger. Todos os comentários se concretizaram perante uma interpretação que já pode ser considerada histórica. Seu Coringa não é um mero “palhaço do crime”. É um sujeito que dá medo. Quando ele aparece já se sabe que algo muito ruim pode acontecer. A forma como compôs o vilão (o modo de andar, de lamber os lábios e a fala fantasmagórica, mais o visual borrado, com um “quê” de O Corvo) faz o Coringa de Jack Nicholson, tão elogiado à época do primeiro Batman de Tim Burton, parecer brincadeira de criança. Uma indicação ao Oscar de Ator Coadjuvante seria mais que merecida – ainda que os especialistas na premiação da Academia alardeiem que dificilmente longas desse estilo sejam premiados. O difícil agora será encontrar algo melhor no quesito “filmes baseados em quadrinhos”.

Batman – O Cavaleiro das Trevas é a prova de que é possível agradar público sem deixar de conceber uma trama inteligente. É a sensação de dever cumprido de seus realizadores e a satisfação imensurável dos fãs do homem morcego.

Segunda-feira, 23 de Junho de 2008

Chefe, eu exijo o Cone do Silêncio...

E lá vamos nós para mais um exercício de nostalgia cinematográfica. A bola da vez é a versão atualizada de Get Smart (Agente 86), a maravilhosa série televisiva que parodiava acidamente todas as idiossincrasias do universo de James Bond. E fazia tudo isso com aquela implicância que americanos têm de ingleses e europeus em geral. Sai o espião quase imortal e entra o esforçado, desajeitado e entusiasmado homem comum em seu lugar.

A presença de Steve Carrel no elenco e na produção executiva do longa conferiu ao projeto a relevância necessária. Carrel é um dos melhores atores cômicos de sua geração e já obteve êxito incontestável em, ao menos, dois papeis; o estudioso gay Frank (em Pequena Miss Sunshine) e o ingênuo Andy (de Virgem de Quarenta Anos). Além disso, Carrel é a estrela da excelente série The Office, na qual interpreta um chefe sádico em um escritório.

A idéia de atualização do seriado foi concebida da mesma forma que em Batman Eternamente, ou seja, foi buscada uma nova maneira de contar uma historia já conhecida por quase todo mundo. O gancho para isso foi resolvido com o enfoque no inicio da série, no caso, quando Maxwell Smart, um analista de sistemas desastrado e nerd, vai para sua primeira missão de campo e como ele conhece sua parceira (e futura esposa no seriado), Agente 99. Interpretada pela bela e talentosa Anne Hathaway, 99 é uma espiã mais tarimbada que Smart e não se sente muito satisfeita com a idéia de contar com um companheiro inexperiente. O motivo é a natureza da missão, na qual 86 e 99 tentam evitar a detonação de uma bomba nuclear em solo americano. Para isso precisam ir até Moscou e capturar o vilão Conrad Sigfried (vivido por Terence Stamp, um dos vilões de Superman II), um dos agentes mais temidos da organização criminosa internacional KAOS. Aliás, Smart e 99 trabalham para a mais secreta das agências do governo americano, o CONTROLE.

Hathaway confere um inédito sex appeal à sua 99 e aparece com roupas estrategicamente reveladoras, além de travar um permanente embate com Smart no qual comparam habilidades e capacidade em safar-se das enrascadas.

A presença de gente talentosa no elenco não pára: Alan Arkin (companheiro de Carrel no elenco de Miss Sunshine) encarna do Chefe do CONTROLE; Bill Murray faz uma ponta memorável como o deprimido Agente 13, que sempre aparecia na série em disfarces improváveis e solitários, como árvores, caixas de correio ou lixeiras; o ex-The Rock, Dwayne Johnson (como o Agente 23) e até Masi Oka (de Heroes).

A visão contemporânea sobre a série encontra a boa direção de Peter Segal, certamente em seu melhor filme, uma vez que seu curriculum traz produções como Golpe Baixo, Como Se Fosse A Primeira Vez, Tratamento de Choque (filmes com o sofrivel Adam Sandler), Professor Aloprado 2 – The Klumps e a última e pior continuação de Corra Que A Policia Vem Aí – 33 e 1/3. Segal concebeu uma moldura competente de thriller de ação para as hilárias cenas que reeditam os maiores bordões do Smart clássico.

Exemplos:

1) As falsas bravatas de Smart:

- Comemore enquanto pode, Sigfried, em alguns instantes o prédio estará cercado por mais de 200 agentes do CONTROLE armados até os dentes.
- Duvido muito, Senhor Smart.
- Acreditaria em 30 fuzileiros com pistolas?
- Acho que não.
- E o que me diz de dez escoteiros com pistolas d’água?

2) Ao iniciar uma reunião secreta, Max pede ao Chefe que utilize o Cone do Silêncio, um dispositivo que impede que a conversa seja ouvida por qualquer pessoa, inclusive pelos próprios participantes. Ao fim de algumas tentativas, o Chefe pede, irritadíssimo, que a engenhoca seja desativada.

3) Frases inesquecíveis como “desculpe por isso, Chefe” ou “Hum, vou adorar”, que sempre aparecem em momentos inadequados.

Criado por Buck Henry e Mel Brooks em 1965, Get Smart foi um grande sucesso em suas cinco temporadas e marcou as carreiras de Don Adams (Smart), Barbara Feldon (Agente 99) e Edward Platt (Chefe) de tal maneira que seus personagens foram sempre mais importantes que os atores, mesmo porque eles jamais igualaram a popularidade em qualquer outro trabalho que realizaram depois. A série foi retirada do ar em 1970.

No Brasil o seriado foi ao ar em várias emissoras de televisão fechadas, desde as extintas Tupi e Manchete, até Globo e Bandeirantes. Atualmente o seriado é exibido no canal TCM.

Agente 86, o filme, é uma excelente pedida para fãs e neófitos. Quem jamais assistiu um episodio da série (e, acredite, há este tipo de infiel por aí) poderá encontrar bom divertimento nos moldes do melhor cinema pipoca americano. Para os que cresceram – ou não – assistindo às aventuras em alguma velha televisão sem controle remoto, o filme é uma beleza.



Sábado, 7 de Junho de 2008

Joy Division – documentário aborda a meteórica carreira da banda inglesa


Por Eduardo Ribeiro

No documentário que entra em cartaz no Brasil, o conhecido diretor de videoclipes, Grant Gee levanta a história do grupo de Manchester através de seus dois álbuns. Por meio de entrevistas que chegam a traçar o perfil da cidade naqueles tempos, da juventude e do perturbado líder do Joy Division, o suicida Ian Curtis, é explorado o potencial criativo de um dos mais importantes combos na história do rock – sua curta, mas fundamental existência, marcaria para sempre o início dos anos oitenta, dando o pontapé inicial naquilo a que se chamou new wave

É difícil imaginar o que seria da segunda metade dos anos 70 para a música se não fosse pelo Joy Division. Muitas coisas importantes aconteceram naquela década, e o grupo liderado pelo enigmático vocalista e letrista Ian Curtis fez parte dessa história. Nas mãos do visionário produtor Martin Hannet, surpreendeu o resultado das gravações, com clima denso, gótico, etéreo, produto de inferências eletrônicas, experimentos astutos e inusitados de captação, imprimindo uma notável ambientação soturna e ao mesmo tempo poética nas composições.

Hipnóticas as performances possuídas de Ian, a emular espasmos robóticos no palco, assumindo uma expressão facial de placidez. É dele o show no documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee. A montagem foi buscar em entrevistas com seus companheiros de banda, Bernard Summer (guitarra e teclados), Peter Hook (baixo) e Stephen Morris (bateria), além de outros nomes fundamentais, como o chefão da Factory, Tony Wilson, toda a rede de fatores que culminaram com o florescimento de sua genialidade, rápida ascensão, epilepsia, confusão mental e suicídio.

Ao passo que serve para pincelar a carreira legendária do quarteto, não consegue escapar da mitologia que a figura de Ian exerce tanto sobre seus camaradas quanto seus fãs. E o quanto o relacionamento dele com a esposa Deborah, autora do livro Touching From a Distance, é mais uma daquelas histórias de casais erráticos do rock. O livro que Deborah Curtis redigiu deu origem ao drama Control, que já estreou no Brasil. Em analogia, parece que o documentário serve para respaldar o romântico panorama em preto e branco do filme.

A série de entrevistas revela aspas que falam de como o cenário de Manchester emergiu a partir das inovações do grupo, de como a cidade suja e tediosa criou o ambiente ideal para o surgimento daquela estética. Mostra de onde veio o Joy Division e para onde foi aquilo que ele deixou como legado. Enaltece a figura perturbada de seu líder, numa atuação impactante que ganhou a mídia. A despeito disso, mesmo sem conseguir fugir do inevitável rumo, Gee foi capaz de prestar a devida atenção ao que se deve observar num conjunto de tal quilate.

Os relatos examinam os quatro anos de existência do grupo através de seus dois sintomáticos álbuns: Unknown Pleasures (79) e Closer (80), confirmando como o Joy Division foi a ponta de lança do cenário pós-punk, e do chamado espírito Madchester – eles resgataram a cidade industrial decadente da letargia. Todos que importam foram abordados pelo diretor, faltando somente a viúva do cantor. Deborah aparece fantasmagoricamente, por meio de citações extraídas do livro.

Em seus melhores momentos, a obra impressiona e se faz relevante pelo mergulho no desenvolvimento do repertório e da estética da banda, como, por exemplo, a passagem sobre as capas dos discos. Eram outros, amargos, mas criativos tempos.

Leia JOY DIVISION

Leia NEW ORDER

Leia CONTROL